3/9/2009 - Jornal do Povo – Cachoeira do Sul/RS - Geral – pg. 10

HCB teve mais uma captação de órgãos

Equipe da Santa Casa pôde retirar o coração, os dois rins e as duas córneas de uma cachoeirense

Os órgãos de uma cachoeirense de 46 anos poderão dar uma nova expectativa de vida a cinco pessoas que estavam na fila de espera, aguardando por um órgão. A paciente que foi internada na UTI do Hospital de Caridade e Beneficência no domingo e teve morte encefálica na segunda-feira teve doados seus dois rins, duas córneas e o coração. A captação dos órgãos aconteceu no próprio HCB, às 18h de terça-feira, com cirurgia que durou duas horas. O procedimento foi feito por médicos da Santa Casa de Porto Alegre e um médico oftalmologista de Cachoeira do Sul, responsável pela retirada das córneas. A partir do momento em que foi constatada a morte encefálica, começou a luta contra o tempo da comissão intra-hospitalar de captação de órgãos e tecidos para transplante. A comissão, coordenada pela enfermeira Cátia Vieira com o auxílio da enfermeira Carlie Taschetto, responsável pela emergência do HCB, foi a responsável por comunicar a família e buscar a autorização para a doação. Para a alegria da equipe, a família aceitou, já que a paciente já havia comunicado aos parentes a sua vontade de ser doadora. O médico Carlos Eduardo Florence, diretor clínico do HCB, explicou que até que a pessoa se torne realmente um doador são pelo menos 24 horas de observação constante do paciente e uma grande quantidade de exames, repetidos a cada período de tempo. “É preciso ter certeza que há impossibilidade total e absoluta de chance de vida. Só aí é que a cirurgia de retirada pode ser feita”, observa Florence.

São também estes exames que vão dizer se o paciente pode realmente ser um doador. Todas as etapas de um protocolo mundial devem ser seguidas para constatar a morte encefálica, por isso são necessárias 24 horas de exames e observação de reações. Os exames são encaminhados a todo momento para a central de transplante, que acompanha toda a evolução. É ela também quem tem acesso à lista de todas as pessoas no Rio Grande do Sul que estão na lista de espera e determina quem são os receptores que se enquadram no perfil do doador, observando características como tipo sanguíneo, altura, peso e idade.

TERCEIRA - Esta é a terceira captação que acontece no Hospital de Caridade e Beneficência desde 2006, quando o procedimento foi autorizado na casa de saúde. O primeiro aconteceu em 2006, o segundo em 2008 e o desta terça-feira foi o terceiro. Segundo Florence, o Rio Grande do Sul já teve um período de grande número de doações e que agora elas estão em baixa. “É preciso haver um estímulo às doações. A comissão do HCB já atua há 10 anos e sempre trabalha para explicar para as famílias a importância e a seriedade de tudo que é feito até que ocorra a captação”, observa o médico.

Doação só quando há certeza da morte
A comissão intra-hospitalar de captação de órgãos e tecidos para transplante tem um cuidado muito grande para somente comunicar a família que o paciente pode ser um doador de órgão depois que já há certeza da morte encefálica. Estes pacientes geralmente já estão na UTI e já têm a morte cerebral confirmada. No entanto, cabe à própria família decidir se autorizará a doação ou não. Quando os parentes optam por não permitir a captação, o paciente permanece na UTI, sendo assistido para manter o seu quadro, até que cesse suas funções vitais. No entanto, conforme já observou a enfermeira Cátia, são pacientes que têm poucos dias de vida.
Quando a família concede a doação, é dado medicamento específico para que o doador mantenha as condições necessárias dos órgãos até que seja feita a cirurgia, sendo mantidos por respiradores artificiais e com controle da pressão, temperatura, entre outros fatores. Segundo Cátia, somente em 2009 foram seis abordagens em famílias que não autorizaram a doação, sendo que duas delas foram no mês de agosto. “Explicamos o que está acontecendo e que o familiar não tem mais chance de vida. Se eles não aceitam, não insistimos. Respeitamos todas as decisões”, relata a enfermeira.

Assunto segue sendo tabu

A pouca autorização para a doação de órgãos pode ser ligada principalmente ao tabu que existe em torno da morte. O médico Carlos Eduardo Florence acredita que uma conversa franca e aberta entre as famílias poderia colaborar para a mudança da realidade destes números. “Ninguém senta para conversar sobre o que quer que seja feito quando uma pessoa querida morre”, lamenta Florence. Ele acrescenta que a doação de órgãos é a chance de vida para outra pessoa, que pode voltar a ter qualidade de vida com o transplante.

A enfermeira Carlie Taschetto, que integra a comissão, compartilha da opinião de Florence. “As pessoas não param para conversar sobre morte. Quando o assunto surge no momento em que se perde um parente, falar em doação de órgãos é algo inimaginá-vel. As pessoas creem na imortalidade e na possibilidade de manter a vida”, complementa.

“Famílias guerreiras”
As enfermeiras Cátia Vieira e Carlie Taschetto destacam que as famílias que autorizam a doação de órgãos são realmente guerreiras. Elas afirmam que esta autorização é também uma demonstração de confiança que os familiares dão à comissão, acreditando na seriedade e confiabilidade do trabalho. “Quando você estende a mão para a doação de órgãos, a linha da vida de outra pessoa continua. Temos um agradecimento muito especial a estas famílias”, dizem as enfermeiras. Após a concretização dos transplantes a família do doador é informada sobre as pessoas que receberam os órgãos, mas sem revelação dos nomes dos transplantados.

O NÚMERO
70
Total de exames que são feitos até que seja constatada a morte encefálica e a impossibilidade de vida. Alguns exames de sorologia como para detectar doença de Chagas e lupus, que caso positivos inviabilizam a doação, são feitos em Porto Alegre. Apesar de poderem ser feitos em Cachoeira, aqui eles demorariam cerca de três dias para ficarem prontos. Na capital são cerca de três horas. Além destes, são feitos raio X, tomografias, eletroencefalogramas e eletrocardiogramas.

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